Osvaldo Macedo de Sousa

Na tradição cristã do oriente, mais especificamente na Igreja Grega Ortodoxa, há um costume pascal de se celebrar o dia a seguir à Pascoa como a «Segunda-feira da Renovação», na qual a comunidade purga a Quaresma com anedotas e piadas trocadas entre os fiéis, numa forma de comemorar a alegria da vitória de Jesus sobre a morte, sobre a matéria. É o riso da vitória sobre as incongruências, é a alegria de quem acredita que será Jesus a rir por último. É o riso pascal.

Curiosa celebração numa religião que, durante séculos, defendeu que Jesus nunca sorriu, que tem condenado o riso / humor, que tem perseguido a liberdade do pensamento irreverente… A questão não é se Jesus tinha humor ou se sorriu (não duvido disso), mas o que os homens impuseram na prática como suas interpretações, ou conveniências. O que levou a que a educação cristã tanto procurasse expurgar o humor dela. Num estudo comparativo de pessoas de diferentes crenças, numa universidade americana, chegaram à conclusão que os hindus foram os que, no humor geral, demonstraram mais sentido de humor e os cristãos, os com menos. Quando o tema do riso é a própria crença, aí os cristãos foram os que demonstraram maior abertura (mais que os ateus) e os muçulmanos os menos tolerantes.

A questão da interpretação da mensagem é o ponto fulcral de toda a educação religiosa. Tal como no ensino escolar, é difícil implementar o lado pedagógico do humor, porque nem todos os professores têm o espírito, a arte ou a capacidade filosófica de utilizar a beleza do humor como veículo da mensagem (como Jesus tinha). Também o clérigo tem dificuldade de usar e defender essa arma psicológica, preferindo, portando demonizá-lo e persegui-lo. A condenação do riso tem sido uma constante na civilização ocidental desde, pelo menos, os gregos, que o consideravam uma ameaça à perda de auto-controle. Nessa altura, o cómico vivia essencialmente do espírito de superioridade, razão pela qual este pode ser mais demoníaco e maldoso.

Claro que o riso de superioridade nada tem de piedoso, não comunga a compaixão, transformando-o em perverso e pecaminoso. Esses são os argumentos dos antigos teólogos, mas o humor vai muito mais além, como defenderia Francisco de Assis, como testemunha o actual Papa Francisco. Separar o humor da religião e a alegria da fé é matar o espirito religioso. Dessa forma se desvirtuou o cristianismo, se procurou matar o sorriso de Cristo na sua mensagem de alegria, de esperança, de ressurreição, de valorizar mais o espírito do que a matéria.

O riso que aborda as religiões, não se ri delas, antes dos costumes, vícios e deturpações que os Homens e os tempos foram imiscuindo na mensagem original. Quem crê, quem está seguro da sua crença/existência não tem medo do humor. Pode, por vezes, não gostar de rir – dos lados negativos que não deveriam existir dentro dessa crença, mas o sorriso de compreensão, da razão pela qual fazem esse tipo de humor é mais elucidativo que muitos sermões ditos sérios.

Desenho de Zé Oliveira (Portugal)

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