Carlos Ramalheiro

Nesta viagem textual pelos recantos da Lousã, apeamo-nos hoje, no lugar da Papanata, onde no longínquo ano de 1936, nasceu esta destacada figura típica, homem incessantemente perseguido, pelas imposições de uma vida hostil, trabalhosa. Manuel António Ferreira, herdeiro de um epíteto reincidente de seu pai José (a quem a indigência vestia camisas com a manga rota) era um homem humilde. Nasceu pobre, cresceu duro, viveu feliz, até ao seu passamento no ano de 2015.


Naquela altura dos tempos, quem nascia pobre, não tinha direito a ser académico. Reinava a estupidificação do país, que qual par de botas bem ensebadas, assentava perfidamente, na astuta delineação do Estado Novo. Como tantos outros conterrâneos, o Manel também emigrou. Em 1969 para França e em 1971 para a Alemanha, onde permaneceu poucos anos. Antes e depois da emigração, laborou em várias firmas lousanenses. Não era – como se costuma dizer – “pássaro de gaiola”, gostando de voar como eles, em eternas révoas de liberdade!… De espírito folgazão, dificilmente deixava transparecer, qualquer ricto de desprazer.


Conhecemo-lo bem, da União de Mercearias, do Armando Gato ou daquele velho e saudoso armazém da CP, onde trabalhou, e demolido mais tarde (em janeiro de 2008) pelos falsos amantes do nosso património. Vanguardeiro dos trabalhos árduos, soube um dia dizer “basta” e abrir um estabelecimento comercial no centro da sua terra natal: Café Mangarrota.

Manuel Mangarrota
Manuel Mangarrota


Na década de 70 do século transato, aparecia aqui por nossa casa, já que era amigo de Artur Martins do Freixo (1921/1994), outra figura típica, com quem estivera junto em Nemours (sul de Paris) no ano de 1969. Cá, fizeram juntos algumas safras, no lagar de azeite do Sr. António Ventura (1892/1982), no Casal do Espírito Santo. Ele era o carreiro, ti Artur o carregador. O Manel, era um homem solidário, sempre pronto a alombar um saco de azeitona pelo amigo, que já mal podia com ela. Estes é que são os nossos reconhecidos heróis…


Dez meses antes de partir, na noite de S. João 2014, estivemos com ele lá na Feira. Dançava castiçamente, aquele ritmo quente americano de Chuck Berry, numa especial junção de vira e swing!
Rock and Roll à Mangarrota!
Jamais o voltámos a ver…


Nota: Casou com Piedade de Jesus Mendes e gerou dois filhos, a Paula e o Joaquim Ferreira, atual presidente do Clube Académico das Gândaras.

Carlos Ramalheiro

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