José Luís Santos

– Pare! Passaporte! – ordena-me um militar imberbe, de feição trigueira e olhar amistoso, ainda meio inocente, próprio de quem está a despedir-se da adolescência.

– Portugália! Ronaldo! – Exclama esse confesso adepto de futebol ao ver a minha nacionalidade.

– Yes, Ronaldo, very good! – respondo-lhe com euforia redobrada, com os dois polegares erguidos a sustentarem as minhas palavras, recorrendo a uma frase que é o segredo para um bom entendimento, de uma utilidade preciosíssima se forem militares ou forças de segurança por esse mundo fora.

Sou encaminhado para uma sala onde tenho de mostrar todos os meus pertences e esvaziar a mochila para que tudo seja minuciosamente inspecionado. Neste Estado totalitário, controlo é ainda a palavra de ordem, pelo que a queda do Muro de Berlim ainda não se fez sentir por aqui.

Saparmurat Niazov, Secretário Geral do Comité Central do Partido Comunista Turquemeno, perpetuou-se no poder e ascendeu a líder deste Estado da Ásia Central aquando da sua independência. Autointitulou-se Presidente e Primeiro-Ministro, de uma excentricidade ímpar, com destaque para um culto da personalidade que fez relembrar a era estalinista, como demonstra a sua publicação de uma obra de leitura obrigatória, o Rukhnama, o “Livro da Alma”, que teria de ser estudada para se passar no exame de admissão à função pública.

Mandou erguer na capital uma estátua em ouro de si próprio, com uma base rotativa, para assim estar sempre virado para o sol, um pequeno mimo para adoçar o seu ego que custou 12 milhões de dólares ao seu povo. Baniu todos os cães da capital por terem um “odor desagradável”, e quando deixou de fumar obrigou todo o executivo a seguir-lhe o exemplo. A cereja em cima do bolo foi colocada em 2002, quando redefiniu os meses do ano e os dias da semana com nomes dos seus familiares.

Após a sua morte, em 2006, subiu ao poder Gurbanguly Berdimuhamedow, um antigo dentista com um fascínio desmedido por cavalos que faz exercício físico em directo na televisão pública, controlada por ele, levantando uma barra de halterofilismo de ouro, mas sem discos, perante o aplauso efusivo e síncrono da sua guarda pretoriana. É atualmente o arkadag, o “protetor” do país, mas parece que também herdou os tiques de um imperador romano como Nero ou Calígula. Retirou a famosa estátua do seu antecessor, mas ergueu uma outra, de si próprio, também dourada, a montar um cavalo. Ordenou igualmente a apreensão de automóveis pretos na capital por considerar a cor branca a ideal para dar sorte.

Mas Berdimuhamedow é um artista nato, e até participou num videoclip de música rap com o seu neto. Talvez já saberá que a sua singularidade ficou justamente registada por John Oliver no seu “Last Week Tonight”. Quem não deverá sorrir tanto será o seu povo, já que o Turquemenistão é o país líder em prisioneiros políticos de toda a antiga URSS.

O visto foi carimbado e o oficial diz-me para aguardar pelo autocarro que me levará para Ashgabat, a capital. Não sei o que me espera, e tenho dificuldade em esconder alguma apreensão.

“Alea jacta est” (os dados estão lançados).

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