Carlos Ramalheiro

A Lousã – caros leitores – não deixa de ser um organismo vivo e, desta forma, um local onde pulsa fortemente a vida. Antigamente, no tempo dos homens que hoje recordamos, a vivência social era diferente, deixava transparecer fielmente, o tecido sentimental que envolvia o coração de todo o lousanense. Aníbal Martins dos Santos, nascido na Tapada de Fiscal a 21 de maio de 1922, não deixa de ser também, um saudoso legado cultural, revalidado pela sua incontestável linhagem.

 Sabíamos que adorava sua progenitora, a lousanense Belmira da Piedade (1899/1973) senhora afável e culta, que muito cedo enviuvou. Era norteado por essa conduta materna. O respeito pelos que partiam, fazia da morte um trajo eterno de luto e saudade. Honrar seu pai e sua mãe, era a divisa deste homem, que no estertor da Segunda Guerra Mundial, viu perigar a vida, como anotou na sua expedição militar a África, no ano de 1945.

Aníbal Martins dos Santos, foi um lousanense insinuante, multifacetado, que para além do emprego como apontador na antiga C.E.B., sabia imiscuir-se nos convívios musicais da nossa terra, em forma de antigas tocatas, ou tradicionais desfolhadas, um “entretenimento campestre”, onde não faltava o som das violas e as vozes por vezes roufenhas dos desfolhadores, cheirando a bagaço e ao sícone exclusivo do figo. Este nosso amigo, primava pelo seu porte vertical e simples. Esta sentida afetividade, recai aos tempos da Favariça onde ele diariamente passava, mostrando mesuradamente, um inato respeito pelos mais novos, coisas que lisonjeavam a alma de qualquer criança, acossada pelas “aguilhadas” do tempo em razão.

Era amante da natureza, da voz ornitológica dos campos. As idas ao Santo António da Neve, como romeiro, nas décadas de 40 a 70, confirmam essa singularidade. Foi um lousanense, deveras algemado aos fortes grilhões da vida, que apenas uma saudável crença torna possível. Em duas palavras, um homem focado na realidade, do mundo sensível e cristão onde vivia. Fez parte da Irmandade da Sr.ª da Piedade e Filarmónica Lousanense. Seu pai, Manuel Martins dos Santos, chegou a possuir uma barbearia, junto à Leitaria Império na Rua do Comércio.

Foi casado com Maria da Piedade Carvalho (1926/2009) e o casal teve dois filhos, a Filomena e o Ulisses, gente de bem. A sua história de vida chegou ao fim, a 25 de setembro de 1997. Era o destino, à procura da hora que estava marcada…

NOTA: O seu livro, “Memórias de um Expedicionário a África” (editado em 1996 e que aconselhamos a ler) encontra-se disponível na Biblioteca Municipal.

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