João Bernardo Lopes

                                                                                                      

Volto ao Sr Pr, não que tenha prazer em relembrá-lo, mas por que o seu currículo era de bradar aos céus. Notava nele algo de errado, o que me obrigava a estar muito tento ao seu “modus  operandi”. 

A informação que dele obtive levava-me a ter o máximo de cautelas, o que mesmo assim não deixou de me causar alguns calafrios, que foram surgindo ao longo dos tempos. Assim sendo, irei dividir esta crónica em três partes distintas, a saber:                                                            

1- Contribuição Industrial – Estávamos a pouco mais de um mês de fixarmos os rendimentos aos contribuintes, cujos valores nos eram propostos pelo tal funcionário, não obstante a decisão final ser da nossa competência. Acontece que o Sr Pr tinha no concelho um familiar que se dedicava aos assuntos de contabilidade e, nessa qualidade, possuía ali uma carteira de clientes. Não tendo esse vínculo em consideração, o que tornava incompatível a prestação dessas informações, e com certo desplante, procurava beneficiá-los baixando os rendimentos, ao mesmo tempo que carregava nos restantes contribuintes. Felizmente que soube atempadamente dessa tramóia, o que me obrigou a rever todas as informações prestadas, subindo o rendimento de uns e baixando o de outros, de forma a fazer justiça equitativa. Esse trabalho não foi em vão, já que nesse ano não houve reclamações.

2- Caso do Mini-Mercado – Fui informado que o Sr Pr foi contemplado com uma má- quina de lavar roupa pelo proprietário de um mini-mercado e que continuava a assediá-lo, agora com uma máquina de lavar louça. Chamei ao meu gabinete o referido proprietário, que me negou “a pés juntos” tal oferta e segundo pedido. Por mais argumentos que       usasse não conseguia dele qualquer informação. Fechei as portas do gabinete e disse-lhe: “o Sr agora não está a falar com o funcionário dos serviços, mas sim com o cidadão, que lhe promete por sua honra não o vir a prejudicar, mas sim a ajudá-lo”. Em lágrimas, confidenciou-me tudo o que eu já sabia. Combinámos uma estratégia para o apanhar em flagrante, mas jamais voltei a ter informações sobre esse contribuinte.                                                  

3- Caso do tanoeiro – Num desafio de futebol o referido funcionário troca impressões com um tanoeiro a quem tenta a extorsão de cem mil escudos. Ameaça-o com denúncia à fuga a rendimentos provenientes da sua actividade, e que só se calará se receber essa importância.  O tanoeiro veio expor-me a situação, assinando as declarações prestadas, o que deu origem a um auto por mim levantado, que seguiu seus trâmites legais, acabando por vir a ser arquivado por falta de provas.                                                                                        

Após o desfecho do último caso aparece-me no gabinete o citado funcionário que me disse ir “seguir para Tribunal”. Respondi-lhe que fazia muito bem, mas que a principal testemunha seria eu, pois sabia de todos os seus “podres”. Não foi e sabe-se bem porquê.  Foi um período negro das minhas funções, já que nesse mesmo concelho vim a detectar um desvio de fundos provocado por outro funcionário. Por tudo isto, e como a corrupção está em voga, não é de admirar o assunto desta crónica, que são gotas de água no oceano.  Deste caso falarei no próximo episódio.

(O autor escreve sem obedecer ao último acordo ortográfico).

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