No decorrer do veraneio lousanense, quando os emigrantes da velha guarda surgiam, vindos especialmente das Américas (mas não só), os amantes da farra, encontravam-se ali no Parque do Regueiro e daí seguiam de instrumentos em riste para os variados locais de aconchego, de preferência tascas ou adegas da nossa terra. Era um ressurgir de emoções, de amizades que, embora de caráter condicional, enfaixavam nessa sazão, como a palha de centeio no colchão do pobre!… Naquele lapso de tempo, tivemos o privilégio de conviver com uma parte destes homens, cujas vidas, pela causa primeira ou última, para sempre findaram…

Miguel dos Pregos, como era conhecido entre nós, emigrou cedo para o Brasil. Era fi lho de Cipriano Miguel (1899/1991), falecido em Santos e oriundo da Silveira de Baixo, Serra da Lousã. Também seu sobrinho, o empresário José dos Santos (Zé dos Pregos) ali faleceu em novembro de 1998. Homens do passado, homens valentes, que souberam dar réplica ao seu fado, pois o pobre, se quer sustento, tem de suar primeiro. Todos eles, rebentos biológicos da nossa serra, foram convidados pela vida a morrer longe do seu país. É a tal história de um Portugal pequenino, para um mundo sepulcral de eterna infinidade, pensamento este que recai ao Padre António Vieira (1608/1697). Neste ponto não esqueçamos o nosso colaborador e amigo Joaquim Miranda, recentemente falecido nestas paragens.

Miguel dos Pregos era um homem que não cabia na sua anímica realidade. Emigrara, andando fugido à fortaleza das suas raízes, talvez por isso regressasse sedento, ano após ano, para poder portugalizar o seu estado de alma… Era um lousanense apessoado, cultor de palavras asseadas. Nelas – convém dizer – procurava a confirmação de sua linhagem, precedentemente serrana. “Como é bom encher o peito de serrania e conviver nestes maravilhosos folguedos.”

Regressava feliz à sua segunda pátria, levando consigo prestimosas impressões musicais, nas gravações que fazia entre nós. O som da concertina era aquilo que o ligava à serra (aqui recordamos Manuel Faria, pai do Zé, exímio tocador deste instrumento, que mesmo atreito à doença pulmonar nos surpreendia nessas andanças com a sua específica virtuosidade.) Miguel dos Pregos, que foi a todo o tempo um dos emigrantes mais popular da nossa terra, era uma fechadura com um orifício alargado e que sabia assisar-se nas costumeiras contradanças da vida…  Nasceu na Silveira de Baixo, no ano de 1929, e faleceu em Santos a 22/4/2009, sendo sepultado no cemitério de Saboó, naquela cidade paulista.

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