Osvaldo Macedo de Sousa

A arma do humor é um utensílio crítico-filosófico universal, mas também particular, porque molda-se segundo as necessidades temporais e geográficas. Se a diversão nunca deixa de ser um complemento sempre presente, no caso da República Democrática do Congo é, acima de tudo, um panfleto de luta pela democraticidade dessa República, um grito num país dizimado por ditaduras e conflitos tribais.

Desta vez, o nosso interlocutor é o cartoonista congolês Alain Mushabah Massumbuko que é também o director do Centro Africano de Caricatura (CAC). O seu percurso tem sido de luta pela dignificação e dinamização do humor gráfico num país difícil. «Em 1991 tive a ideia de criar a primeira estrutura que reunisse os cartoonistas zairenses: a Associação de Cartoonistas da Imprensa (ADEPRESS) que mais tarde se tornaria o CAC».

«O humor congolês não é fruto da influência ocidental, embora a imprensa escrita e audiovisual no Congo seja obra de ocidentais. Ao longo dos anos, o meu país conheceu excelentes comediantes na música, no teatro e no que se denomina “Arte popular”. Nomes importantes são: Lunaki, Tshielantendu, Albert Mongita, Jean Bala, Pap’Azo, Denis Boyau, Thembo Kashauriu, Emmanuel Makongo, Beketch Luyeye Londi, Fifi Mukuna (uma mulher, algo raro neste sector da imprensa escrita), Alain Mata, Alain Mushabah; já no século XXI Patou Kanzi, Patou Bomenga, Yves Hemedi Tshianzi, Assette Mansongi Manzambi (outra mulher, agora no cartoon de imprensa)…»

A relação entre os governantes e o humor nem sempre tem sido fácil. «Na época da ditadura do Marechal Mobutu era pior; nos dias de Kabila (I e II) ainda tínhamos de estar, em parte, escondidos e hoje, com o regime de Tshisekedi, sentimos uma certa abertura na liberdade de expressão, mas… temos de ter cautela. Mais de um artista já foi preso por causa dos seus trabalhos».

«O Congo, sendo um grande país laico com vários grupos étnicos, o respeito pelas religiões e outros grupos étnicos é essencial. Por vezes há algumas tensões e desentendimentos entre grupos étnicos, motivados, infelizmente, por certos países estrangeiros (vizinhos e ocidentais)».

«Rir é uma luta, e quer sejam as nossas tradições ou as de outros lugares, com humor, eu rio e rio de qualquer situação que pareça não satisfazer as pessoas. Você não pode criticar os outros sem aceitar que você mesmo seja criticado. A tolerância e o respeito pelos outros devem ser as armas com as quais um comediante / cartoonista se deve armar. O humor é o melhor, um verdadeiro meio de transmitir as mensagens de paz e solidariedade com o povo contra as opressões, contra os abusos, contra a destruição das tradições, do ambiente… em todo o mundo. Na verdade, em nossa opinião, o humor, em todas as suas formas, tem o poder de transformar este mundo atormentado».

Desenho de Alain Mushabah («Outra vez um desenho sobre mim?… Eu vou-te matar!»)

Desenho de Alain Mushabah («Outra vez um desenho sobre mim?… Eu vou-te matar!»)

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