João Bernardo Lopes

Imigrante no meu país, acabei por cair no concelho de Oliveira do Hospital. Estávamos em Junho de 1975 em pleno período revolucionário. Ali vivia-se a política com sofreguidão e disputa, por vezes um pouco exagerada, por parte de adeptos de um ou outro partido.

À margem de tais disputas fui criando o meu clima de trabalho sem vir a ser molestado ou incomodado por quem quer que fosse. Minha mulher acompanhou-me nessa transferência, sendo colocada na freguesia de Bobadela, povoação de origem romana que dista da sede do concelho cerca de três quilómetros. Pelas suas ruínas romanas, pelo pelourinho e ainda pelo museu, vale a pena visitar esta localidade. Montámos casa na sede do concelho e aí foram crescendo os meus filhos, até nova transferência, agora para Coimbra.

As gentes de Oliveira do Hospital deixaram-me (e à minha família) uma óptima impressão, por nunca me terem levantado problemas e pela forma ordeira e educada de lidarem comigo e com os funcionários meus subordinados.

Além de me encontrar a chefiar um serviço público, também exercia por inerência do cargo, a presidência da comissão local do IARN (Instituto de Apoio à Retoma de Nacionais). Esta comissão tratava dos apoios aos retornados vindos das ex-colónias, pessoas marcadas pelo destino de revolta, mas todos educados sem exigências impossíveis de satisfazer.

No meio de todo este turbilhão de gentes, conheci a Srª D. Maria Ferrolho, retornada de Moçambique, ávida de conversar e desabafar as suas mágoas e memórias ali passadas e que se encontrava a viver numa das freguesias do concelho. Fui de certa forma e durante algum tempo seu confidente, sendo ela muito simpática e de uma alegria e amabilidade contagiantes. Fiquei a saber que havia trabalhado no hospital da ex-Lourenço Marques com o camarada falecido Samora Machel, ambos então auxiliares de enfermagem. Entre eles existia certa amizade e cumplicidade, ao ponto de D. Maria ter escrito ao seu ex-colega de profissão, para que a indemnizasse dos valores patrimoniais por si deixados naquele ex-colónia.

Samora Machel respondeu-lhe em carta escrita por si em letra redonda e a tinta preta. Li a carta que me ofereceu, mas que delicadamente recusei, já que se tratava de um documento histórico e valioso para si. Nela o ex-presidente de Moçambique, além dos habituais cumprimentos, tratava-a carinhosamente com ar humorístico e brincalhão, afirmando-lhe que o seu país estava em condições de a compensar daí a cinquenta anos…

E aqui a D Ferrolho, também brincando, afirmava: aquele…bem sabe que tenho mais de 70 anos e logo se torna impossível receber a sua oferta.                                 

 (No próximo artigo voltamos a Srª D. Maria Ferrolho)

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