Igualmente indesejável, nova praga compete com o maldito covid: a dos atropelos à língua lusa, que se disseminam por todos os meios, mormente os da fala; com a agravante de que, a esses, nenhuma máscara detém.

O exemplo mais recente, que todos os dias ouvimos profusamente repetido, também encontra nos meios clínicos um ambiente privilegiado para propagação; é a vácina, com agulha na primeira sílaba semelhando seringa no braço da gente. Que nós tenhamos de entregar  a pele à perfuração, lá terá de ser; não desejamos continuar, por muito mais tempo, mascarados neste triste carnaval. Mas a palavra ‘vacina’, senhores, não precisa de ser vacinada! Deixem que a tónica continue na penúltima sílaba! Porque a palavra é grave, mas mais grave fica se a tornarem esdrúxula!

Tratando-se de um vocábulo do foro sanitário, torna-se muito mais equívoco se adulterado por profissionais de saúde, como tem repetidamente acontecido. Porque traz esse “certificado” de (falsa) garantia perante os ouvintes mais distraídos e desqualifica a classe perante os mais avisados. Não esqueçamos que um médico (ou enfermeiro, ou…) obteve um diploma que o responsabiliza também pelo bom uso da língua portuguesa, não só pela competência clínica. Hipócrates, que no seu tempo teve de erradicar uma epidemia, não era apenas um clínico, também tinha formação em retórica e filosofia.

Desde que começou o covid-19, urgiu que os profissionais de topo nessa matéria se multiplicassem em contactos entre si, sem fronteiras, num somatório de experiências e de conhecimentos que acelerassem uma solução. A língua internacional para estas coisas é o inglês e a solução é a vacina; em inglês, vaccine [váksin]. A prática repetida do vocábulo inglês passou-lhes da ponta da língua para a massa do sangue, e aí os temos a apregoar vácinas para a esquerda, vácinas para a direita.

Agora, imaginem que estes clínicos se deixam colonizar de tal modo pela língua de Shakespeare, que nos dizem “push” quando quiserem que a gente “empurre”!…

Texto inserido na coluna “Rua dos Combatentes”, por José Oliveira

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