Projeto feito em Vila Nova de Poiares deverá avançar em breve na Lousã

“A Música Portuguesa, à Janela, a Gostar Dela Própria” que, em tempos de confinamento, imortalizou Vila Nova de Poiares e as suas gentes através da gravação da sua tradição oral em vídeo, foi o vencedor a 8.ª Edição do Prémio Maria José Nogueira Pinto que vai atribuir 10 mil euros ao projeto.

Embora não fosse óbvio ao início, “A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria” (MPGDP) acabou por ter um marcado papel social, e a sua variação, à janela, ofereceu a muitos dos protagonistas destes vídeos a única companhia que tiveram durante os meses de confinamento devido à pandemia de Covid-19. Mais de 70 pessoas, sobretudo as mais velhas, foram gravadas ao longo de um mês nas várias freguesias do município, à janela e à porta, no fundo, à distância, cumprindo as distâncias de segurança e normas sanitárias em vigor. Através de um protocolo de utilidade pública com o Município de Vila Nova de Poiares, e o apoio do técnico do município da área da cultura, Gabriel Matos, foi possível eternizar poemas, rezas e responsos, cantigas, músicas, e até histórias de vida.

O júri do galardão conquistado caracterizou a iniciativa como a que “melhor corresponde ao conceito de “socialmente responsável na comunidade onde nos inserimos”, defendido por Maria José Nogueira Pinto, num ano em que, mais do que nunca, somos chamados a pensar no coletivo”.

Para Tiago Pereira, realizador, documentarista, radialista e fundador do projeto, “o prémio vem reforçar o lado social” d’ A Música Portuguesa a Gostar dela Própria. “Aprendemos que esse aspeto era o mais importante de todos, o foco estar sempre nas pessoas, e o prémio também não existiria se não fosse a disponibilidade das pessoas em Poiares, que se deixaram gravar à janela, nos quintais, naqueles tempos e com a repercussão que teve”, explicou ao Trevim.

“Aquilo que vivemos nesse mês foi muito forte” disse, recordando que “as pessoas estavam revoltadas por estarem fechadas em casa, porque estavam sozinhas e isoladas”, uma dimensão humana também captada em vídeo.

A coletânea foi sendo publicada na plataforma P3, do jornal Público, e emitida no programa da Antena 1, “O Povo que Volta a Cantar”, o que ajudou “as pessoas a ver o que se estava a passar em Poiares, os familiares viam os avós e os pais, e isso contribuiu muito para que o projeto tivesse uma repercussão forte dentro da comunidade”. A partir de janeiro, os vídeos das gentes de Vila Nova de Poiares vão ser também transmitidos na RTP Memória.

Gravações no Alentejo e na Lousã

Com a verba de 10 mil euros atribuída pelo prémio, a MPGDP pode continuar a gravar a memória e tradição orais por esse país fora, e já prosseguiu entretanto viagem para o Alentejo. Sousel, Montemor-o-Novo e Borba, um dos 191 concelhos com medidas mais restritivas, foram as próximas paragens, em sequência de diversos protocolos com juntas de freguesia e câmaras municipais. Segundo Tiago Pereira, o protocolo com o Município da Lousã será assinado em breve, permitindo eternizar também as tradições e sons deste concelho.

“Esse dinheiro serve para ajudar a que as gravações não acabem, para que consigamos continuar a fazer aquilo que temos feito mas agora com uma perspetiva muito mais social, gravando as pessoas à janela e fazendo com que não se sintam tão isoladas e que os vídeos sirvam para que as pessoas comuniquem mais com elas, que as vejam e que lhes deem um reforço positivo”. Reforçando que “é preciso continuar a gravar”, Tiago Pereira contou ao Trevim, que “há ranchos que não ensaiam desde março, e muitos que não se vão levantar, há pessoas que estão a desaparecer porque morrem de causas naturais ou de Covid-19, ou então porque têm medo dos hospitais ou é mais difícil lá chegar porque estão isoladas”. A equipa da MPGDP tem visto “muitas coisas a desaparecer” e “está a tentar contrariar isso”.

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