A Bíblia tem muito mais política do que algumas pessoas possam pensar. Em Deuteronómio (aprox. 640 a.C.) Moisés propôs um conjunto de regras de ética e justiça sociais: “que não haja pobre no meio de ti” (Deut. 15: 4), mas a ganância toldou os hebreus que, castigados por Deus, acabaram por viver um longo período de subjugação. Ao longo dos séculos a vinda de um Messias inspirou os hebreus, até em movimentos revolucionários: dos “marginais” Essénios do Mar Morto, à rebelião dos Zelotes, ou com líderes como João Baptista, Jesus Cristo, Paulo, entre outros, que pugnaram pela libertação e pela justiça (Marcos 1: 15 e 9:1, 1.º Tessalonicenses 4:15-17 e 1.º Coríntios 15:51-53).

A exegese permite concluir sobre a conciliação entre dois planos distintos (o terreno e o espiritual) que através de Deus se reconciliam, tal como Papa Francisco tem referido várias vezes. A célebre passagem “Dai a César o que é de César” (Lucas, 20:25; Mateus, 22:21, etc.) é o reconhecimento que a construção do reino de Deus na terra se faz pela mão da mulher e do homem.

Nas democracias os impostos surgem como uma forma de justiça social e económica. No entanto, a realidade atual parece aproximar-se mais dos hebreus da aliança frustrada com Deus ou dos Romanos que exploravam Israel entre os séculos a.C. e d.C.. Hoje, enquanto os grandes grupos empresariais têm direito a isenções e acesso a paraísos fiscais, distribuem prémios entre administradores e aumentam os dividendos dos acionistas, colocam trabalhadores em lay off depois de anos com lucros avultados, as Micro e as PME continuam a lutar para manter ordenados e garantir a sobrevivência. A “cafetaria do bairro”, a cabeleireira, a loja de roupa, ou a empresa do concelho estão sujeitas a custos de funcionamento, contribuições fiscais e não só que adensam um sentimento de injustiça. Hoje, há milhares de pessoas desempregadas, PME em graves dificuldades, uma União Europeia que insiste na crise de todos para gerar lucro a alguns, um modelo socio económico de exploração e endividamento totalmente falacioso e insustentável.

Nesta pandemia, em Estado de Emergência, depois da Páscoa, o 25 de abril deveria ser a esperança renovada numa vida nova que há-de vir.

 

Hélder Bruno Martins

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