José Oliveira

Copio um naco de prosa do poeta e ensaista Guillermo de Torre (Madrid, 1900-Buenos Aires, 1971),  in ‘Problemática de la Literatura’: “Aquele que saiba escrever com intensidade e verdade acerca do seu próprio presente será sempre e para todas as épocas um escritor do presente. Pelo contrário, aquele que seja inactual e anacrónico na própria época, continuará a sê-lo para todos os seus sucessores. Embora as estéticas possam mudar, os problemas permanecem de época para época, e a linha ideal de uma correspondência de sensibilidade manter-se-á sempre tensa, como vínculo de continuidade supra-temporal”.

Embora se trate de uma reflexão acerca da literatura, este conceito assenta perfeitamente na função de fazer um jornal, que desejamos produzido “com intensidade e verdade acerca do seu próprio presente”.

A intensidade pode residir numa reportagem de circunstância, desde que o seu autor, para além do relato circunstancial, use a sua imaginação ao encontro da avidez do leitor e consiga equilibrar isso com a objectividade necessária, economizando, ao mesmo tempo, o espaço do jornal; o mesmo é dizer: poupando os minutos e a paciência do leitor; porque hoje ninguém lê apenas o jornal, todos consomem uma grande fatia da sua disponibilidade navegando (um tanto à deriva) na enormidade de oferta, que lhe desaba em cima via computador, telemóvel, tablet, televisor, rádio. Cabe aos jornais a tarefa de saberem competir com todas estas circunstâncias, dizendo muito com poucas palavras – e de modo aliciante – porque a concorrência é forte e o tempo dos leitores é escasso.

Notícias recentes, alarmantes, têm desnudado vergonhosas ocorrências no âmbito das plataformas onde todos navegamos e erguemos, vezes sem conta, o nosso polegar em sinal de “like”. Não é com esses meios de difusão que construiremos um mundo melhor, porque a verdadeira razão de ser dessa(s) plataforma(s) não é tão ingénua como parece. Por isso se impõe, cada vez mais, que produzamos, edição após edição, um Trevim que reflicta “com intensidade e verdade acerca do seu próprio presente”.

 

 

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