José Luís Santos

São cinco e meia da manhã quando acordo em sobressalto com o barulho ensurdecedor do despertador. Não podia falhar. Adormecer seria cometer um pecado capital quando o objetivo é chegar às portas do Taj Mahal e ser dos primeiros a entrar às seis da manhã, quando este monumento colossal abre as suas portas, para assim o fotografar com a suave luz que o ilumina nos primeiros instantes depois do nascer do sol. A noite foi mal passada, após um dia em correria e uma noite numa cama rija, suja e esfarrapada. Mal abro os olhos, tento acender a luz do quarto. Naquela fracção de segundos em que faço o clique e a lâmpada fluorescente gagueja até iluminar a pequena divisão, salta uma enorme ratazana, que num ápice se mete debaixo da minha cama. Não será necessário descrever o susto que apanhei, ainda sem tirar a remela dos olhos, e daquele tempo em que fico a pensar que não paguei por companhia nessa noite, mas tive-a, ou de perceber o porquê de aquilo que restava da cama onde dormi ter tantos buracos. O animal, pelos vistos bem alimentado, podia ao menos ter-me agradecido o manjar que lhe terei proporcionado com a comida que tinha num saco. Nesta tragicomédia, dará muito azo à especulação de cada um imaginar como terá sido estar ali sabendo da presença do outro, e ter de ir à casa de banho ou vestir as roupas que estavam espalhadas pelo chão.

Às seis da manhã estou no pelotão da frente para entrar no recinto do palácio, como se do pódio de uma prova desportiva se tratasse. Aquela que é uma das novas Sete Maravilhas do Mundo, nasceu no século XVI da vontade do imperador Shah Jahan em honrar o amor pela sua esposa favorita, Aryumand Begam, que faleceu ao dar à luz o 14º filho, construindo assim um mausoléu sobre o seu túmulo. Sendo esta uma construção muçulmana de cariz religioso, não será de espantar o controlo que há na entrada, numa rigorosa vistoria aos objetos que podemos levar. Entro por uma das várias portas que, pela sua exuberância em tons de pedra rosa escuro deixam antever o que se seguirá até que todas as imagens deste monumento que temos desde tenra idade são suplantadas pelo que os nossos olhos vêem ali, em direto, sem quaisquer filtros. Parece uma montanha de mármore branco, o cenário óbvio de um conto das Mil e Uma Noites, que foi meticulosamente esculpida ao longo de anos a fio para dar corpo àquele que é o ex líbris deste país. O jardim ostenta a suavidade do seu verde, separado por uma correnteza de água a meio, que espelha a imagem do mausoléu. À medida que o dia vai ganhando força e a luz irradia na sua habitual forma desmedida, o reflexo do Taj Mahal vai desaparecendo aos poucos nessas águas até que nada resta a não ser o brilho do sol.

O cenário enche-se aos poucos de cores mais vibrantes, com as vestes de mil e uma cores das mulheres que começam rapidamente a encher o espaço. Os turistas começam a chegar em força. O barulho da massa humana munida de telemóveis a agitar-se para fazer “selfies” começa-se a fazer sentir e é nesse momento que me dou por muito satisfeito pelo sacrifício que tive em acordar mais cedo para conseguir apreciar este espaço que, por momentos, consegue ser tão mágico antes de cair em desgraça. Quando saio dali, dirigo-me para aquilo a que se chama hotel com a cabeça na nova criatura que ficou no meu quarto, naquela indecisão de ter, ou não, mais um encontro não programado.

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