Chegar a Agra

Já quase a despedir-me de Goa, fui dar uma aula de História à sua Universidade para uma plateia de alunos indianos que aqui optaram por fazer uma licenciatura em estudos portugueses. Daí, já em contra-relógio, apanhei um táxi para o aeroporto e aí mais um avião para Nova Delhi, para conseguir um lugar num comboio para Agra. A última imagem que me fica desta terra que foi império nosso foi um enorme galo de Barcelos, empoleirado na sua sala de espera. Horas mais tarde, aterrava já noutra Índia, a alguns milhares de quilómetros dali. Enquanto sigo um indiano que me ajudou a sobreviver nas turbulentas águas do mar de gente que ondulam nesta estação, tomo rapidamente consciência da miséria e das desigualdades sociais deste país.

A sujidade é uma constante e faz-se sentir, seja a nível visual como em todo o resto que tão facilmente se depreende. Os animais vagueiam à procura de restos, rasgando sacas de lixo, e não falo só de cães. Vi, e fotografei, vacas com a cabeça bem enfiada dentro de um contentor à procura de comida. Todo este cenário concentrou-se nuns míseros cem metros, entre a estação de metro e a de comboio da capital. Aí, corro para a carruagem, em busca de desejada plataforma três, ultrapassando um senhor, já quase na casa dos sessenta anos, que me indica que vai na mesma direção. Corremos sem parar, avistando, ao longe, o comboio a partir. Eu, carregado com duas mochilas e a câmara fotográfica, já antevia o pior, mas esqueci-me que estava na Índia, onde tudo é possível. Demos um último sprint junto ao comboio em marcha e saltámos, como num filme, para o seu interior. Com a respiração ainda fora de controlo, olhamos um para o outro com aquele ar triunfal, e momentos depois sentávamo-nos. O homem que me ajudou, de nome Raju, é um pastor evangélico que tenta espalhar a sua fé pelo norte do seu país. Além de se sentir deslocado, por ser do sul, sente-se cada vez mais receoso da sua vida, que mesmo assim insiste levar avante até porque, segundo me disse, estava “pronto a morrer pelo seu deus”. Foi ele que me arranjou o bilhete de comboio para depois regressar a Nova Delhi, além de me trazer na sua moto pelas movimentadas ruas de Agra, em que a expressão “caótica” me soa a eufemismo.

Acabo o dia exausto, num quarto que parecia que não era limpo há meses, numa cama sem lençóis e esventrada, deixando ver a esponja que dá corpo ao colchão com uma tonalidade negra de sujidade que é a pátina dos milhares de corpos que já ali dormiram. Mas tudo isso era irrelevante uma vez que daí a poucas horas já estaria levantado pois pelas seis e meia da manhã estaria a entrar no Taj Mahal para o fotografar com o nascer do sol, antes dos turistas chegarem. A Índia é isto, uma vivência tão forte, com um travo tão agridoce que nos marca logo ao primeiro olhar. A experiência humana é fortíssima, e o resto é paisagem, que também é soberba para fotografar.

 

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