José Oliveira

O fogo é uma choruda fonte de rendimento para alguns, mas de desgraça para muitos mais. Deste emaranhado novelo, eis algumas das inúmeras pontas:

– A madeira queimada, que num repente surge em quantidades enormíssimas e exige abate imediato, transforma-se em maná para negociantes da especialidade, que a pagam a preço irrisório;

– Os meios aéreos contratados para o combate estão concentrados numa pequena e blindada quantidade de operadores, que facilmente concertam os seus interesses;

– Cada linha de electricidade (Muito Alta, Alta e Média Tensão) é implantada num corredor desmatado que varia de largura consoante a tensão de cada uma (as de Muito Alta circulam numa faixa desmatada de 50 metros, que duplica para cem quando essas linhas são duas, paralelas, como frequentemente acontece). Seriam, portanto, excelentes aceiros contra-fogo, se a empresa eléctrica mantivesse o desmatamento, como exige a lei. Falhando isso, surgem casos em que a proximidade entre a folhagem das árvores e os cabos eléctricos provoca ignições. O especialista Xavier Viegas, da Universidade de Coimbra, afirma que o incêndio iniciado em Pedrógão Grande terá surgido desse modo, a partir de uma linha de Média Tensão. As probabilidades desse tipo de ignição aumentam quando o arvoredo é sacudido por forte vendaval, e isso explicaria o surto de focos de incêndio em alinhamento, como tem acontecido.

Enquanto se cria um plano de ordenamento florestal, necessariamente demorado, urge:

– Criação imediata de um serviço estatal para comercialização (ou supervisão dela, salvaguardando a moralização dos preços) de toda a madeira ardida;

– Restabelecimento de um serviço de cantoneiros, em brigadas, convenientemente equipados para a manutenção do desmatamento das faixas marginantes das estradas;

– Regresso dos Serviços Florestais e correspondente serviço de Guarda, com a função, entre outras, de vigiar e fazer cumprir, por parte da operadora eléctrica, o desmatamento das faixas de protecção das linhas eléctricas;

– Criação de um ágil serviço estatal de combate aéreo a incêndios, integrado na Força Aérea.

 

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