José Oliveira

Aos 21 anos tem-se um umbigo maior do que um punho; não sei se é geral, mas eu tinha! Por isso, na edição nº 1 do Trevim dei, à crónica que ali começava, o idiota e egocêntrico nome genérico de “Eu e as Coisas”. Mas adiante. Nunca mais tinha relido aquilo e, ao reler agora, direi que hoje a expurgaria dos 80 por cento de estultícia que a enchem, mas assinaria de novo o sentido essencial dela. Designadamente, e conforme então citei, a afirmação do repórter brasileiro David Nasser (revista Cruzeiro) que, de visita a Lisboa, terá afirmado: “o jornalista não o é verdadeiramente por profissão, mas sim por vocação”.
Mais abaixo e no mesmo sentido, debitei que, nesta dimensão que o Trevim delineava e hoje mantém, “o timbre da nossa dedicação por uma causa, (…) mais do que ‘jornalismo’ é ‘regionalismo’”.
Presentemente, e considerando a substancial diferença de ritmo da vida de agora comparativamente com o suave (e podre) pulsar dos dias de há meio século, nenhum jornal conseguiria ser eficiente se editado hoje nos moldes totalmente amadores de então. Porém, permito-me reafirmar que “o jornalista não o é verdadeiramente por profissão, mas sim por vocação”. E acrescento: considerem-se felizes aqueles que têm a oportunidade de desempenhar uma profissão a partir de uma vocação.
Há apenas dois dias (na terça) faleceu Clare Hollingworth, a veterana correspondente de guerra britânica que foi o primeiro jornalista a dar a notícia do início da Segunda Guerra Mundial, através das páginas do ‘Daily Telegraph’. Morreu com 105 anos e tinha só 27 quando foi enviada à Polónia, por aquele jornal, ao serviço de cuja redacção entrara uma semana antes. Provavelmente não terá sido alheio àquele furo, vindo de terras polacas, o facto de a jornalista que o obtinha ser uma profissional em início de carreira. A idade da juventude é mais propícia à paixão, sentimento sem o qual não há verdadeiro jornalismo.
Entrevistado há dias, dizia Fernando Alves, da TSF, que uma redacção não pode ser uma repartição pública. E reafirmava a paixão como condição para um eficaz desempenho. Assim seja no Trevim, cada vez mais, por mais 50 anos!

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