A Índia é um mundo à parte, um planeta longínquo onde chegámos há mais de quinhentos anos e por onde ficámos outro meio milénio. Foi por isso que, ao viajar para este país, tenha optado por desembarcar no aeroporto de Goa. Este nome, como cidade já desapareceu há muito, no século XVIII, flagelada por uma peste que obrigou as autoridades do nosso reino a arrasarem a urbe, poupando unicamente as principais igrejas, como a Sé Catedral ou a igreja do Bom Jesus de Goa, a que alberga os restos mortais de São Francisco Xavier. A capital foi transferida para Pangim, daí que, hoje, Goa não indique a cidade que tanto lemos nos livros de História, mas uma região que engloba outros centros urbanos como Vasco da Gama ou Margão.

É uma experiência única vaguear pelas ruas de Pangim, escritas na língua de Camões, e encontrar goeses que não só falam a mesma língua que eu como têm um sentimento de carinho para comigo muito pouco usual, como se resultasse da pertença a uma mesma matriz. Aqui conheci o senhor Francisco Fonseca, que canta o fado, tendo sido até convidado para atuar na visita do nosso primeiro ministro, António Costa, que também aqui tem as suas origens. O “Chico”, como os seus amigos lhe chamam, partilha da sua paixão pela minha, ou melhor, a nossa cultura. Junto à sua casa, na rua de Ourém, após uma conversa muito apaixonada sobre aquilo que nos une, não se conteve e fez questão de cantar a viva voz um fado de Coimbra. Nesse momento, encantou-me estar ali, vidrado, a ouvir esta música tão minha, mas no outro lado do mundo, saída de uma voz que a cantava com um sentimento tão português.

Na igreja da Imaculada Conceição, a principal de Pangim, há missa em português aos domingos, pelas 10:30. As lojas mantêm nomes que nos são tão característicos, bem como alguns pratos que se comem por cá, como a feijoada. A arquitetura colonial é soberba, elevando o bairro das Fontainhas a uma das pérolas do património português além ares hoje tão sobrevoados por aqueles que aqui procuram praias paradisíacas ou testemunhos da nossa presença.

Goa Velha, vista do alto da Igreja da nossa Senhora do Monte, é uma autêntica selva, onde o verde se impõe implacavelmente. Não ficamos indiferentes quando entramos no seu museu arqueológico e nos deparamos com uma enorme estátua de Afonso de Albuquerque e outra, ainda maior, de Camões. Há sentimentos difíceis de explicar, e não me refiro ao saudosismo. Na Biblioteca Municipal, detive-me no sexto piso dedicado aos livros portugueses. Aí, falei com todos os funcionários na minha língua. Pelo meio, ainda dei uma aula de História da Expansão Portuguesa na Universidade de Goa para uma turma de indianos que aqui querem aprender a nossa língua, história e cultura, gente muito curiosa sobre o meu país. Serão, assim, muitas as razões que me fazem sair daqui consumido por um anseio de querer regressar a uma terra onde me sinto como numa casa muito próxima da minha.

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