Os povos dos concelhos que tocam a Serra da Lousã voltaram a reunir-se no Santo António da Neve, que juntou mais de uma centena de pessoas a cerca de mil metros de altitude.
No local, o segundo ponto mais alto da Serra da Lousã, realizou-se, pelo 21.º ano, um convívio, com um farnel partilhado. De todos os lados vieram pessoas à XXI edição do Encontro, uns a pé, outros de transporte. A iniciativa é organizada pelo Jornal Trevim, pela Associação Caperarte, pela Liga de Amigos do Museu Etnográfico Dr. Louzã Henriques e pela Lousitânea – Liga de Amigos da Serra da Lousã, que mantêm viva a tradição.
Luís Alves, da Lousitânea, explicou ao Trevim que este é um convívio a que a coletividade se associa há muito tempo, lembrando que, nesta edição, se pretendeu discutir a vida nesta montanha multimunicipal. “Temos que zelar pela qualidade de vida de todos e chamar a nós próprios a responsabilidade. Este é um momento de convívio mas também de reflexão”.
Já Casimiro Simões, também da organização do evento, recordou que o povo da Serra da Lousã é todo o mesmo. “Somos todos o mesmo povo na Serra da Lousã, onde as pessoas confraternizam e continuam a confraternizar. Este é um convívio fraterno e permite-nos ir encontrando e reencontrando neste espaço”.

 

Todos os caminhos vão dar ao Santo António

Joaquim Santa, de 66 anos, foi com um grupo de três amigos a pé para o convívio. “É uma tradição e há mais de 30 anos que vimos a pé. Gosto de caminhar. A primeira vez que vim foi há 50 anos”, disse.
O membro do Grupo de Caminheiros Terras de Arunce, diz que este evento significa a “beleza que tem o alto da Serra da Lousã e os poços da neve, que se levava para Lisboa. Hoje, estamos três mas o grupo de caminheiros vem cá três vezes por ano”, acrescentou.
Também de Ponte do Sótão, em Góis, chegaram duas associações, que estiveram, pela segunda vez, presentes no evento: a Associação de Melhoramento e Assistência e a Casa do Povo. Carlos Barata, responsável pela ida ao Santo António da Neve, explicou que 25 membros foram a pé e os restantes de autocarro. “O objetivo é o convívio e juntar os mais idosos com os mais novos”.
Também o Grupo Etnográfico da Região da Lousã voltou a um local onde já vai há mais de 20 anos, tendo realizado uma breve atuação. “Já é habitual virmos cá. É um ponto de encontro. São momentos de convívio e de reencontro. É um dia diferente”, disse, lembrando ainda que o grupo, representado por 30 elementos, está solidário com as vítimas dos incêndios e que, por isso, a atuação deste ano não foi tão efusiva.

Um local com história

Erguida em finais do século XVIII, a capela de Santo António da Neve e os Poços da Neve, na antiga freguesia do Coentral, estão classificados como imóvel de interesse público.
O conjunto arquitectónico situa-se num sítio emblemático da Serra da Lousã, onde outrora, na festa de 13 de junho, em honra do advogado do gado, se reuniam anualmente os povos serranos, numa espécie de assembleia que juntava romeiros dos concelhos vizinhos, especialmente Castanheira de Pera, Lousã, Góis e Figueiró dos Vinhos, mas também Pedrógão Grande e Miranda do Corvo.
Durante séculos, no inverno, o gelo era armazenado nos poços, cavados no xisto, e depois transportado em carros de bois durante a noite até Vila Nova da Barquinha, de onde seguia de barco até Lisboa, para ser consumido em gelados na corte e nos cafés da capital, como o Martinho da Arcada.
A capela foi mandada construir por Julião Pereira de Castro, neveiro-mor da casa Real e o local passou a designar-se por Santo António da Neve. José Lopes Ventura é o zelador da capela e vai ao Santo António da Neve há mais de 70 anos, sempre a pé. Uma vez por mês, vai abrir a capela, “para esta respirar”, explica. “Isto para mim significa um monumento dos melhores que existe”, afirma. Também Carina Duarte, moradora no Coentral, explicou que os habitantes da localidade têm muito orgulho em ter a chave da Igreja. Chave essa que está na posse de José Lopes Ventura.

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